segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Amigo da Onça - Folha da Tarde - 1986

O Amigo da Onça - Folha da Tarde - 1986

O Amigo da Onça por Jal e Altino Lobo.

O Amigo da Onça por Jal e Morettini.

O Amigo da Onça é um personagem criado por Péricles de Andrade Maranhão (1924 - 1961) e publicado pela primeira vez na revista O Cruzeiro em 23 de outubro de 1943.

Satírico, irônico e crítico de costumes, O Amigo da Onça aparece em diversas ocasiões desmascarando seus interlocutores ou colocando-os nas mais embaraçosas situações. 

Após a morte do autor, em 1962, o personagem continuou sendo publicado, desenhado pelos ilustradores Getulio Delphim e Zé Geraldo (José Geraldo Barreto) durante dois anos. Colaboradores da editora na revista Charlie Chan, assinavam "Equipe do Cruzeiro". Após esses dois anos, o cartunista Carlos Estevão passou a desenhar o personagem, até 1972.


O Amigo da Onça pela "Equipe do Cruzeiro"

O Amigo da Onça por Carlos Estevão.


Em 1989 o cartunista Jal (José Alberto Lovetro), com a concordância da Angélica Braga Guimarães, viúva do criador e detentora dos direitos sobre o personagem, retomou a série na revista Semanário da editora Azul, com desenhos de Octávio Cariello.



O Amigo da Onça por Jal e Cariello.


Em seguida Jal propôs o personagem em formato de tiras diárias em parceria com os desenhistas Caco (Carlos Cesar Leal Xavier) e Sergio Morettini (Sergio Raul Morettini)e outros desenhistas. As tiras perduraram por toda a década de 1990 e foram publicadas em diversos jornais como o Hoje em Dia de Belo Horizonte (MG) e A Tribuna de Vitória (ES).


O Amigo da Onça por Jal e Caco.

O Amigo da Onça teve pelo menos dois livros publicados pela própria editora O Cruzeiro em 1961 e 1972, um livro publicado pela editora Busca Vida em 1987, uma revista publicada pela editora Parma na década de 1980 e parte das tiras diárias foram reunidas em uma revista lançada pela editora Nova Sampa na década de 1990.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Primeira edição do 'Charlie Hebdo’ depois do atentado dispensa luto e ironiza fanatismo

Primeira edição do 'Charlie Hebdo’ depois do atentado dispensa luto e ironiza fanatismo
Número histórico chegou às bancas e livrarias brasileiras no início deste mês


POR ARNALDO BRANCO
RIO - A capa do cartunista Luz com Maomé se declarando “Charlie” é ótima, mas prefiro uma que vi no Facebook (nenhuma ideia se chegou a ser mesmo cogitada), toda preta e com a manchete: “Urgente, precisamos de seis cartunistas”. Seria mais fiel ao teor da edição seguinte ao atentado à sede do jornal “Charlie Hebdo”, que matou 12 pessoas — nenhum sinal de luto respeitoso em todas suas dezesseis páginas, só pedrada no fanatismo de seus algozes.

Também apanham bastante os aliados de ocasião, gente que representa tudo o que os mortos abominavam e que disputaram à tapa uma alça do caixão na manifestação de 11 de janeiro — entre eles um representante do governo da Arábia Saudita, que mantém preso e submetido a sessões de chibatadas semanais o escritor e ativista Raif Badawi. Aparentemente, não é preciso apresentar nenhum atestado de coerência para requerer sua credencial de “Charlie“.

Na edição fatídica, o jornal não precisou se defender de acusações de ligação com a extrema direita — ninguém se atreveria a fazer uma besteira dessas na França, íntima de sua linha editorial anárquica. Espero que os ecos da desinformação da esquerda relativista brasileira não tenham chegado ao conhecimento das famílias dos mortos, que não precisam de mais motivos para se decepcionar com a humanidade.

Mas o hebdomadário tem muito a dizer sobre os defensores dos limites do humor, aqueles que prestaram solidariedade com ressalvas — os que acreditam que Wolinski e seus colegas, Deus os tenha, foram longe demais em suas provocações. Também sobrou para a transformação do jornal em um baluarte da liberdade de expressão — um cartum mostra uma sweatshop em Bangladesh com crianças fabricando camisetas com os dizeres “Je suis Charlie”.

Não há uma vírgula de arrependimento pela publicação do material que serviu de pretexto para a invasão: Charb, o editor assassinado, havia dito na ocasião das ameaças de atentado que “preferia morrer a viver de joelhos”. Para ele, não fazia sentido manter circulando um jornal de humor que não incomodasse ninguém.

Em outra oportunidade, os editores resolveram publicar uma “edição responsável”: não tinha textos nem desenhos, só algumas manchetes inócuas. “Esse”, disse Luz depois do atentado, “é o jornal daqueles que dizem ‘Eu sou Charlie, mas...’”.

Arnaldo Branco é cartunista




Um mês após atentado contra 'Charlie Hebdo', cartunistas na França avaliam impacto da tragédia

Um mês após atentado contra 'Charlie Hebdo', cartunistas na França avaliam impacto da tragédia

POR BOLÍVAR TORRES
RIO - Assim que soube dos ataques à sede do jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris, o desenhista francês Julien Couty largou o lápis. Naquele 7 de janeiro, 12 pessoas foram brutalmente assassinadas, incluindo oito colegas de profissão seus, por causa das caricaturas de Maomé e piadas com o Islã veiculadas na publicação. O pior atentado terrorista ocorrido na França em 50 anos envolvia diretamente a atividade de Couty, o desenho. Abalado, ele demorou algum tempo para voltar a trabalhar.
— Senti uma tristeza profunda, mas não foi o medo e sim o choque que me impediu de trabalhar — lembra Couty, cartunista da “Télérama”, tradicional revista de cultura francesa. — Eram muitas emoções juntas e o assunto em loop na mídia oferecia poucas possibilidades de pensar em outra coisa. Vemos mortos todos os dias nos jornais, e tentamos colocar um pouco de distância, porque senão é insuportável. Mas agora não há distância, tudo se tornou mais “real” porque aconteceu aqui.


— Nossa profissão está recebendo muita atenção agora, mas não creio que isso vá durar — avalia Couty. — As pessoas colocam o sentido que querem no slogan “Je suis Charlie”. Eu mesmo não tenho certeza do que ele quer dizer, se é uma adesão às ideias do “Charlie Hebdo”, uma adesão à liberdade de expressão em geral, ou só uma palavra de apoio às vítimas. Todo mundo se apropria do slogan e o usa como quer, milhões viram “Charlie”, até governos e instituições.Couty é um dos muitos cartunistas do país que, um mês após os atentados, ainda tentam medir o impacto da tragédia sobre sua profissão. Os eventos de janeiro — que causaram um total de 17 mortes em Paris ao longo de dois dias, cometidas pelos irmãos Chérif e Saïd Kouachi e um cúmplice, Amedy Coulibaly, em ação reivindicada pela Al-Qaeda na Península Arábica — provocaram mobilização, mas também dúvidas. De uma hora para outra, o desenho de imprensa se viu no centro do debate sobre liberdade de expressão na França, causando não apenas surpresa, mas também aborrecimento para muitos profissionais. Paralelamente à comoção nacional, que levou milhões de pessoas às ruas e transformou o slogan “Je suis Charlie” em símbolo da liberdade, a classe como um todo tenta entender seu novo papel.




Como contraponto, Couty ironizou a pouca atenção deferida às milhares de mortes causadas pelo grupo terrorista Boko Haram na Nigéria, na mesma semana do massacre em Paris. Em uma charge para a imprensa francesa, desenhou um recanto abandonado do país africano, com o solitário vendedor de uma banca de jornais perguntando: “Tem alguém aí?”
— Talvez não seja normal se sentir mais afetado pela morte de 17 pessoas do que por massacres na Nigéria, no Irã, na Síria... Mas foi o que aconteceu — observa Couty. — Depois, em um segundo momento, isso nos ajuda a abrir os olhos para todos os horrores do mundo e vê-los de outra forma.
INTERESSE INÉDITO PELO CARTUM
Para Aurel, desenhista do “Le Monde”, a tristeza pela perda dos amigos — era especialmente próximo do cartunista Tignous, assassinado junto com outros integrantes da equipe do “Charlie”, como Wolinski, Charb, Honoré e Cabu — veio acompanhada de questionamentos. Ele não gostou, por exemplo, de ver desenhistas serem retratados pela mídia como “arautos da liberdade de expressão”.
— Nunca o fomos e não pretendemos sê-lo hoje mais do que antes. A liberdade de expressão é um assunto de todos os cidadãos. Há uma emoção ligada ao atentado, aumentada pela personalidade dos desenhistas, muito populares para alguns, que levou as pessoas a falarem besteira. Levou-as, inclusive, a se interessarem pela profissão e darem a ela uma súbita e inverossímil importância, sendo que até pouco quase não existíamos para os outros. Do nada, começaram a perguntar nossa opinião sobre qualquer assunto. É idiota — diz Aurel.
Como previsto, a edição deste ano do Festival de Angoulême, maior evento de quadrinhos da Europa, foi marcada por homenagens ao “Charlie”, que ganhou um prêmio excepcional pelo conjunto da obra. Encerrado no domingo passado, o evento teve boa parte da programação dedicada ao desenho de imprensa e à liberdade de expressão. Em colaboração com a equipe do jornal satírico, o Museu da HQ de Angoulême montou uma exposição que recupera, em muitos desenhos, a história do “Charlie”. A ideia era mostrar ao público que a trajetória do semanário não se limita aos conflitos religiosos e que ele sempre teve diversas pautas, como direitos das mulheres, direitos humanos e ecologia.
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Nos quatro dias de evento, o diretor do festival, Franck Bondoux, percebeu um interesse inédito do público de todas as idades pelo “Charlie Hebdo”. Mas ele acha que é cedo para saber se haverá uma reconsideração do papel do desenhista de imprensa no país.
— É normal que o interesse tenha aumentado depois do que aconteceu, mas só o tempo dirá se isso trará mudanças para a profissão — especula. — Evidentemente, muitas contradições surgiram depois dos eventos. O pessoal do “Charlie” era brocador, eles atacavam os símbolos. Depois do 7 de janeiro, eles próprios se transformaram em um símbolo. Isso tem incomodado a equipe do jornal.
No segundo dia do evento, uma marcha de quadrinistas interrompeu as sessões de autógrafo e os debates, cobrando melhores condições de trabalho para a classe. Entre os desenhistas ouvidos pela reportagem, é unanimidade que o setor sofre mais com questões econômicas do que com ameaças religiosas. Apesar das 7 milhões de cópias vendidas pela nova edição do “Charlie Hebdo”, publicada uma semana depois do atentado, a perspectiva para o futuro é desanimadora.
— Nesse ponto, todos estamos mais ou menos de acordo, estamos pessimistas — revela Xavier Delucq, desenhista em diversas publicações, incluindo o “Huffington Post” francês. — Não somos valorizados, o que fazemos nem é reconhecido como uma profissão. Os jornais falam cada vez mais da nossa importância para a liberdade de expressão, mas quem está por trás da profissão não é apoiado por esses mesmos jornais.
Para Delucq, a França não vê com bons olhos as provocações da imprensa satírica — e o fundamentalismo islâmico não é o principal obstáculo.
— Tenho mais problemas desenhando um pênis do que desenhando um profeta — observa Delucq. — Aliás, um jornal que no dia anterior havia defendido enfaticamente a liberdade de expressão recusou um desenho meu porque mostrava um pênis.
ISLAMOFOBIA E CENSURA
A religião, porém, ainda é motivo de controvérsia, especialmente entre aqueles que não aprovavam o estilo provocativo e iconoclasta do “Charlie”. É o caso do cartunista e quadrinista Halim Mahmoudi. De origem argelina, ele cresceu nos subúrbios pobres da cidade francesa de Rouen, em uma cultura muçulmana — experiência retratada em duas de suas graphic novels, “Arabico” e “Un monde libre” —, e sempre condenou as caricaturas do profeta feitas pelo jornal. Após os ataques, sofreu “duplamente”, diz.
— Sofri como desenhista de imprensa satírica, devastado pela morte de colegas, mas também senti raiva frente à violência do tratamento midiático contra os muçulmanos, os árabes e os negros que, como eu, vivem na França — desabafa Mahmoudi. — Em um primeiro momento, recusei todos os pedidos de desenhos sobre o assunto. Me senti em uma armadilha. A maioria dos desenhistas usou o lápis como uma arma, e não um meio de comunicação. Parece que todo mundo perdeu a cabeça.
Mahmoudi acredita que as marchas “Je suis Charlie” esconderam outras questões importantes, como a discriminação contra os muçulmanos e a censura editorial nas redações.



— Sob o pretexto de que nada justifica um assassinato, e estamos todos de acordo nesse ponto, não temos mais o direito de pensar diferente, de matizar o assunto — diz Mahmoudi. — Ficou muito difícil criticar o “Charlie”, questionar a validade das charges deles, sem passar por conservador, covarde ou traidor. Na verdade, a profissão de desenhista nunca esteve no centro do debate. Houve apenas discussões inúteis para se assegurar de que são os outros que não sabem nada de humor. É mais uma terapia de grupo que um debate de fato... No fundo, somos mais ameaçados pelas linhas editoriais e contingências econômicas do que por fundamentalistas religiosos. Não há fatwascontra cada desenhista do país, isso é paranoia!
Com um forte esquema de segurança, a edição deste ano do Festival de Angoulême se desenrolou sem incidente algum, em um “ambiente de fraternidade, troca e bom humor”, descreve Franck Duboux. Alguns quadrinistas admitem que tiveram dificuldades para retomar suas atividades depois do atentado, temendo pela própria vida ou pelas de seus familiares. Aurel diz que levou tempo, mas reuniu forças para voltar a desenhar.
— Não podemos trabalhar com medo — diz Aurel. — É preciso ir além das emoções muito fortes, pois elas não são boas conselheiras. Pode levar tempo. Seria idiota dizer que nunca sentimos medo, mas é preciso superá-lo, pelo menos quando desenhamos.

Gibiteca inaugura exposição ‘Je suis Henfil’ nesta quinta-feira (5)

Gibiteca inaugura exposição ‘Je suis Henfil’ nesta quinta-feira (5)

Até o dia 10 de março a Gibiteca Henfil no Amazonas abrigará uma mostra comemorativa aos 71 anos no artista brasileiro, caso estivesse vivo















Exposição em Manaus mostra cartoons e charges do patrono da Gibiteca Henfil-AM

Exposição em Manaus mostra cartoons e charges do patrono da Gibiteca Henfil-AM

Portal do Holanda
04/02/2015 às 18h48
A Gibiteca Henfil-AM abre nesta quinta-feira (05), às 14h, uma exposição de cartoons e charges para homenagear o cartunista Henfil, patrono da gibiteca e às vítimas do atentado contra a revista satírica "Charlie Hebdo”.
O evento coordenado pelo cartunista amazonense Jack Cartoon, deverá receber várias visitas dos amantes dos desenhos, quadrinhos e charges, reunindo a nata dos artistas locais e seus aprendizes. “A arte tem a capacidade de traduzir o que em muitos casos não é possível descrever em palavras. O acervo que será exposto mostra a genialidade de Henfil em traduzir esses momentos da história com seus traços. Será inspirador”, disse Jack por telefone ao Portal do Holanda.
Nascido em 5 de fevereiro de 1944, Henrique de Souza Filho, o Henfil, produziu charges para jornais (Diário de Minas e Jornal do Brasil) e revistas (O Cruzeiro e O Pasquim), com trabalhos influenciados pela ligação que mantinha com movimentos sociais. Infelizmente, faleceu aos 43 anos vítima da AIDS.
A morte precoce veio depois que ele contraiu o vírus HIV por meio de transfusão de sangue, necessária por conta da hemofilia.
Acesse a fanpage da Gibiteca no Facebook: GIBITECA HENFIL-AM
Local: Rua 24 de Maio, 590-A – Centro
Data: 05/02
Horário: 14h - seg - sex
 more at: http://portaldoholanda.com.br/amazonas/exposicao-em-manaus-mostra-cartoons-e-charges-do-patrono-da-gibiteca-henfil-am#sthash.W7iprHz2.W4xj1h1w.dpuf

terça-feira, 15 de abril de 2014

A ENTREVISTA Stan Lee

STAN LEE
* Tom Russo
A ENTREVISTA
Stan Lee tem dificuldade em apontar coisas. Não importa que tenha um dom quase mágico de bolar personagens e foi o responsável não só pelo surgimento do Universo Marvel,mas de boa parte do imaginário popular da última metade do século.
Quando chega a hora de apontar o melhor artista entre a infinidade de lendas com quem trabalhou, ele enrola, faz que vai, não vai e tira o time de campo. E, enquanto os fãs perguntam o tempo todo sobre o que está segurando os projetos da Marvel para o cinema, Lee insiste que as razões dessa demora não são fáceis de se  explicar. Fazer o fundador da Marvel falar de sua companhia ou do panorama da indústria é como tentar atirar no Mercúrio, do X-Factor. Atualmente, o lançamento da Excelsior, uma linha de super-heróis independentes para a Marvel que ele vai editar em seu escritório de Los Angeles, é um dos projetos que mais tem ocupado Stan Lee. Numa tarde de setembro na praia de Malibu, durante os preparativos para uma viagem a Nova York, onde faria uma participação especial no filme Mallrats, o grande guru dos quadrinhos sentou-se com a WIZARD para dar sua entrevista definitiva.

Wizard : Fale sobre o que mais você fez antes de se estabelecer nos quadrinhos.
Stan Lee : Bem, comecei a trabalhar com 15 anos. Ainda cursava o colegial e arranjei um emprego de meio período entregando sanduíches em Nova York. Em todas as entregas, eu saía disparado. Todos os outros entregadores andavam devagar e me diziam: “Por que você está se matando?”. E a minha resposta: “ ESTOU DESCOLANDO GORJETAS!”. Eu pensava: “Esses caras  são idiotas. Com as minhas corridas, faço duas vezes mais entregas do que eles e embolso duas vezes mais gorjetas”. E nunca mais parei de correr.

Pra onde você correu em seguida?
Ah, tive um monte de outros empregos. Com 16 anos, fui lanterninha num grande cinema na Broadway chamado Rivoli. Naquela época, ser lanterninha era como ser cadete da academia militar de West Point. A chefia te inspecionava quando você se apresentava ao trabalho pela manhã. Um dia, Elanor Rooosevelt foi ao nosso cinema e, adivinha! Foi direto até a minha fileira. Como fiquei orgulhoso... Eu estava indicando o caminho da mulher do presidente. Empinei o queixo e fui andando. Mas algum cretino botou o pé na frente e eu cai de cara. Só sei que, quando abri o olho, a primeira-dama colocou as mãos nos meus ombros e disse: “Precisa de ajuda, mocinho?”.
UAU!

Seja como for, depois eu vi um anúncio no jornal: PROCURA-SE ASSISTENTE EM EDITORA.
E esse classificado era da Timely Comics, que tempos depois se tornou a Marvel.

Exatamente. E acho que fui o único que respondeu ao classificado, porque descoleio emprego. Eu nem mesmo sabia que se tratava de uma editora de histórias em quadrinhos, mas imaginei: “Vou aceitar o emprego,ganhar experiência e cair fora”, Nunca mais saí de lá . E está é a história da minha vida ( risos ).
Mas você não tinha algum parentesco com Martin Goodman, o sujeito que fundou a Timely?

Ele era marido de uma prima minha. Esse foi o máximo de parentesco que tivemos ( risos ). A gente nem se conhecia.
 Isso era por volta da Segunda Guerra Mundial. Quando você serviu o exército?

Me a listei no exército com uns 18 anos. Acho que já estava trabalhando pro Martin a pouco mais de um ano. Pensei que ia pro estrangeiro, mas alguém descobriu que eu trabalhava com quadrinhos. Daí me mandaram pra Astoria, em Queens, onde o exército tinha uma divisão de cinema. Fui escrever roteiros de filmes de treinamento manuais de instrução, mas também desenhei um cartun que deve ter sido um dos mais famosos da Segunda Guerra. Me pediram  pra fazer um pôster convencendo os soldados a irem a uma estação de tratamento caso  tivessem andando com alguma menina. Agora, me diz como colocar isso num pôster?
Ou em qualquer pôster!

Bem, desenhei um cartum de um soldado a caminho da estação, sorrindo orgulhosamente. Então pus um pequeno balão sobre sua cabeça com os dizeres: Doença Venérea? Comigo Não!. Devem ter distribuído 200 trilhões desse pôsteres. Eu ganhei a guerra sozinho ( gargalhada ).
Não foi extamente um Sargento Fury. Mas mudando de assunto de volta ao front doméstico, qual era o tamanho da Timely naquela época?

Ah, quando cheguei lá, era só o Joe Simon e Jack Kirby. Jack era o artista e Joe, o editor. E como a Timely não tinha muto mais funcionários além dos dois, o Martin Goodman comprava material artística adicional da Funnies, Inc. O Tocha Humana e o Príncipe Submarino foram comprados da Funnies.
Você progrediu rápido depois que foi contratado?

Eu era jovem e não tinha experiência com publicações, por isso no começo só entregava recados. Mas comecei a participar do processo criativo muito rápido Joe e Jack me davam revisões para fazer e eu pensava com meus botões: “Nossa, eu também posso escrever isso”. Então acabaram, me pedindo pra escrever algumas coisa e foi assim que me tornei roteirista. E não muito tempo depois da minha chegada Joe e Jack saíram. O Martin precisou de alguém para substituir Joe como editor e me perguntou: “Você acha que pode encarar o trabalho enquanto procuro um adulto?”. Quando se tem 17 anos, a gente acha que pode tudo! Eu disse claro e me tornei editor. Ao que parece Martin não encontrou mais ninguém, porque fiquei no cargo até me alistar. Depois, voltei e trabalhei como editor, diretor de arte e roteirista-chefe até me tornar Publisher em 1972.
Fanboy  tornou-se um termo muito popular neste ramo. Você era essencialmente um fanboy anos atrás ou havia um tipo diferente de entusiasmo pelos quadrinhos naquela época? ( Nota do tradutor: “fanboy” é a maneira de se designar um fã de quadrinhos que acaba trabalhando na área ).

  Sabe de uma coisa, não acho que era diferente de hoje. Atualmente, a maioria das pessoas está no ramo porque são fãs e, naquela época era  a mesma coisa. Eu era um grande admirador do Jack. Adorava Capitão América. Quando comprei uma edição pela primeira vez não dava pra acreditar. Estava muito à frente de qualquer outra coisa. E Joe e Jack eram os caras que tinham produzido aquela revista. Por isso, quando apareci pra trabalhar pra eles, fiquei muito, muito impressionado. Eram os meus deuses.
Muita gente não sabe que seu verdadeiro nome e Stanley Lieber, não é mesmo?

Bem, eu sou Stan Lee há tanto tempo... mas é isso mesmo. Meu nome era Stanley Martin Lieber. Um nome adorável. Poético! Mas, quando comecei a escrever gibis, achava que ainda escreveria o “Grande Romance Americano” e quis guardar o Stanley Martin Lieber pra isso. Daí, cortei meu primeiro nome na metade e pensei: “Vou usar esse pros gibis, porque é só um emprego temporário”. No fim, fui ficando e cada vez mais gente passou a me conhecer como Stan Lee. Que é um nome bem ridículo...
Já se escreveu que, nos anos 50, quando a indústria começou a capengar você estava pra deixar os quadrinhos.
Trabalhei pro Martin Goodman todos aqueles anos e foi muito bom. Ele entendia do assunto, mas achava que os quadrinhos eram um meio de comunicação apenas pra gente muito jovem. E eu estava cansado de escrever roteiros simplistas com palavras que jamais excediam duas sílabas. Finalmente, em 1960, disse à minha esposa: “Joan, eu  quero cair fora”. Ela respondeu: “Sabe Stan, você sempre disse que gostaria de escrever histórias diferentes . Por que não faz isso e edita uma revista do jeito que você quer? O pior que pode acontecer é o Martin te demitir. E você quer pular fora de qualquer jeito, né? Então o que tem a perder?”. Foi por este motivo que nós começamos o assim chamado Universo Marvel. Tudo culpa da minha mulher.
De onde você tirava tanta inspiração para todos esses personagens?
Nem imagino de onde vinham as idéias. Se eu pensar a respeito, quem sabe descubra.

Bem que tal os X-Men?
Essa é fácil! Na época em que fiz os X-Men, eu já havia esgotado os meios dos personagens adquirirem seus superpoderes. O Homem Aranha tinha sido picado por uma aranha radioativa. O Quarteto Fantástico, atingido por raios cósmicos. Thor era um deus e ponto final... Então disse: “Vou facilitar as coisas pra mim. E se as pessoas simplesmente nascessem desse jeito? E se fossem mutantes?”. Isso não é nada. É só uma idéia. O importante é  bolar personagens que os leitores gostem. Você pode ler a maior trama do mundo, mas se não tiver interessado nos protagonistas , a história não vai significar nada. E pra mim criar personagens é a coisa mais divertida do mundo, até mais do que escrever. Essa é a razão porque sou um escritor tão rápido. Quanto mais rápido redijo, mais cedo termino. É provavelmente a única razão porque fiquei tanto tempo nos quadrinhos. Tive um monte de ofertas para escrever livros e roteiros de filme, mas a idéia de redigir alguma coisa que me ocupasse por dias e semanas sempre foi aterradora. Gibi, a gente escreve em um dia e depois acaba. Claro que na manhã seguinte, tem que começar tudo de novo e ainda assim, nenhum projeto dura mais do que um dia ou dois.

De onde veio sua marca registrada de dizer Excelsior?
Adoro expressões . A primeira que usei bastante foi “nuff Said”. Aí eu percebi que revistas concorrentes também andavam usando o mesmo. Então pensei: “Dane-se. Vou bolar outra expressão”, Mas tudo que eu criava, pouco depois começava a pulular em outras revistas. Por isso finalmente optei por Excelsior. Imaginei que ninguém mais usaria, porque nem mesmo sabiam que diabos significava a palavra. Nos tempos do rei Arthur queria dizer sempre pra cima.
Muito bem, prepara-se. É chegada a horas do terrível jogo de associação de nomes.
Ah, eu sou terrível nessas coisas, mas tudo bem.
Jack Kirby
O mestre
Steve Ditko
O gênio sem igual.
John Romita Sr
O melhor que há
John Buscema
O Michelangelo dos quadrinhos. Ele não tem um estilo chamativo, por isso não tem tantos fãs quanto alguns outros, mas pode desenhar qualquer coisa e melhor do que ninguém.
Vamos, Stan. Agora abra o jogo. De todos os artistas com quem você trabalhou, quem é o seu favorito? O Buscema?
Ah, eu trabalhei com tantos. Teve o Steranko. O Barry Windsor-Smith. Depois, Gil Kane, Ross Andru, Joe Sinnott...
Tudo bem, mas agora você tem que nos dizer quem é seu personagem preferido.
Eu teria  que dizer que meus dois personagens favoritos são o Homem Aranha e o Surfista Prateado. O Homem Aranha, porque se tornou tão famoso e nos identificamos muito. O Surfista Prateado, porque sempre adorei botar, na sua boca, um montão de coisas que realmente expressavam muito da minha filosofia de vida.
Dizem que o primeiro título do Surfista Prateado foi cancelado em 1970 porque Martin Goodman teria dito: “Vamos alterar o personagem. Chega de filosofada”.
Isso mesmo. Eu preferi cancelar a revista. Mas sempre tive sorte com o Surfista. Kirby criou o personagem e fez um trabalho magnífico. Depois, veio o Buscema, que foi fantástico. Então, fiz aquela edição especial com o Moebius e achei o cara brilhante. É, tenho muito orgulho do Surfista. Na verdade, gostaria que ninguém mais tivesse posto a mão nele. Mas, depois de um tempo a Marvel decidiu trazer o homem de volta. Eu não tinha tempo de escrever e não teria sido justo fazer um escândalo federal e dizer: “Não ,não,não façam isso”. Pelo menos, sei que escrevi todas as primeiras histórias. Pra mim, é nelas que está a quintessência do Surfista Prateado.
Por falar nessa primeira histórias, elas suscitaram novo interesse, uma vez que Jack Kirby não parava de dizer que talvez você tenha recebido crédito demais enquanto ele nem tanto.
Pode ser verdade, Jack merece grande parte do crédito. Não acho que aquelas histórias teriam sido o sucesso que foram sem a mão dele. A sua arte era um grande fator de inspiração pra mim. Quando Jack desenhava uma história ele sempre acrescentava coisas que não tínhamos discutido antes. Nunca tentei diminuir o mérito do seu trabalho. Quanto ao fato de eu ter crédito demais, quem sabe? As palavras que você lê em todas aquelas histórias eram minhas. Eu dizia: “Jack, bole um personagem chamado Hulk. Ele tem que ser deste e desse jeito. E assim por diante, com todas as revistas”. Depois que começávamos, Jack dava contribuições enormes aos roteiros. E , mais tarde, alguns roteiros. E, mais tarde, alguns roteiros eram inteiramente dele. Uer dizer, o homem simplesmente me trazia vários argumentos e eu nem ligava. Ele era tão bom , que escrever o texto final era muito divertido pra mim. Sempre achei que tínhamos um relacionamento de trabalho maravilhoso.
Como você definiria seu papel na Marvel hoje?
Na Marvel Comics, ainda sou Publisher e diretor , mas é um título mais honorário do que qualquer coisa. Sempre achei que, se você não tem responsabilidade , não deve exercer autoridade. Se as coisas vão mal na Marvel Comics, ninguém pode me culpar. Então, não é justo que eu tente dizer a quem está no comando o que fazer ou como fazer. Por isso, apenas ofereço consultoria e tento ajudar as equipes criativas da melhor maneira possível. Na Marvel Films, sou o co-produtor executivo de todos os nossos filmes, projetos de TV e desenhos animados. Trabalho com Avi Arad ( presidente da Marvel Films ) e nós dois iniciamos esses projetos tentando trabalhar com osmelhores roteiristas e diretorese lutar pra que tudo seja colocado nos melhores estúdios.
Você disse que parte do apelo de redigir um gibi é o desfecho rápido. Os filmes são um negócio onde as coisas andam muito lentamente...
Mas a gente aprende. Quer dizer, você tem que viver com as regras. Já me disseram: “Você não acha péssimo não ser dono dos personagens que criou?”. Eu não me sinto mal porque aquelas eram as regras quando criei todos eles. Sempre vivi de acordo com elas. E já aprendi quais são as regras em Holywood. É assim que os filmes são feitos. Por isso, se você fica conhecendo os bastidores de um projeto, vê que demora cinco, seis, oito anos desde o momento em que alguém escreve o roteiro até as estréia do filme. Alguns deles andam rápido, como O Máskara. Você tem Jim Carrey, um bom roteiro , o estúdio certo e, em um ano ou dois, está tudo pronto. São exceções.
Você encomendou meia dúzia de seus scripts a David Goyer, o roteirista da continuação de The Crow. Ele parece ser um sujeito talentoso mas não é ruim deixar tanto material com um só roteirista?
Não, não. Ele é muito rápido e muito bom. Se der conta do recado, ótimo. Na hora em que entregar um roteiro ruim, a gente não compra . Eu tive mesmo problemas anos atrás quando trabalhava pro Martin Goodman. As pessoas diziam “Por que você deixa o Stan escrever tantas revistas?”. E ele respondia: “Ora as histórias são boas. Quando deixarem de ser ele não escreve mais”.
A verdadeira força da Marvel Films até o momento foi a animação. Como você classifica X-Men e os desenhos animados que vieram depois dele?
Eu estava assistindo ao X-Men outro dia e fiquei pasmado de ver que depois de três anos, os episódios  parecem tão novos e empolgantes quanto no início. Em seguida veio o Homem-Aranha e, no primeiro anos, já é uma tremenda série. Isso é bom demais. E acho que todo mundo vai ficar impressionado com os desenhos animados na próxima temporada da Marvel Action Hour. Ela está à altura de X-Men  e Homem Aranha. É uma série totalmente diferente desta temporada.
Houve mudanças na equipe criativa da Marvel Acton Hour?
Sim. Mudamos todos os que estavam produzindo o show. Do pessoal produzindo o show. Do pessoal que faz os storyboards e layouts ao diretor, são todos novos. Vi alguns dos primeiros desenhos e são maravilhosos.
O que você acha  da situação dos quadrinhos hoje?
Tenho muito orgulho dos rapazes da Marvel. Acho que há muitas idéias novas e um monte de surpresas nas revistas. Você lê os fanzines e algumas pessoas dizem: “A gente não gostou desse história, de clonagem do Homem-Aranha”. Bem. Você pode não gostar, mas vendeu. Gerou muito interesse. E acho que a saga Age of Apocalypse nas revistas dos X-Men foi brilhante. Obviamente,as histórias estão bem mais violentas e sombrias do que anos atrás, mas o mundo está mais violento e sombrio.
Mesmo aasim, recentemente a Marvel cancelou um monte de títulos. Você acha que o surgimento da Image Comics em 1992 deixou um vácuo de talentos.
Umas das coisas mais sensacionais no ramo das histórias em quadrinhos é que ele cresceu tanto e tem um número tão grande de jovens querendo  ser artista  e roteirista que não há mais escassez de talentos. Todo dia aparece um guri genial de 18 anos batendo na porta, louco para desenhar ou escrever um revista. Talvez eu esteja bancando cretinamente a Poliana, mas desejo toda a sorte do mundo a Image. Eles são todos rapazes simpáticos e talentosos e triunfaram em quase tudo que fizeram. Acho isso ótimo.
Em nenhum momento de sua carreira você sentiu um desejo ardente de trabalhar para a concorrência?
Anos atrás quando as histórias de super-heróis não apreciam estar indo a parte alguma adoraria ter escrito Super Homem, Batman e Mulher Maravilha. Agora esses personagens não parecem mais precisar de mim, mas eu sempre pensava: “Rapaz, aposto que deixaria esses caras populares de novo. Hoje acho que me divertiria escrevendo Lobo”.
De todas as histórias que você escreveu, qual é a sua favorita?
É difícil dizer. Às vezes passo os olhos num volume de Marvel Masterworks ou alguém me traz um revista para autografar e topo com uma história de que não me lembrava mais. Então digo: “Uau! Está é uma das minhas favoritas!!!”
Ah, Stan! Assim não tem graça. Eu estava folheando Marvel Masterworks outro dia e vi um história que eu tinha esquecido completamente...
Mas há tantas. Teve uma história do Demolidor. Era sobre um amargurado veterano do Vietnã que tinha ficado cego. Esse sujeito estava encrencado. O Demolidor aparece para ajudar e encorajar o cara. Gosto de história que tenham calor humano e acho que essa em particular, é uma delas. Também teve as três histórias do Quarteto Fantástico que passaram a ser chamadas de A Trilogia do Galactus. Adoro esse nome. Nas minhas palestras em universidades, os alunos diziam: “Falem-nos da trilogia do Galactus”, e eu me sentia importante. Acho que todas as história que escrevi na revista do Surfista Prateado, da primeira à última, foram excelentes. E adorei muitas das revistas do aranha. Na verdade, não posso mesmo dizer qual foi meu gibi favorito. Eu amei todos.  
* Colaborador da Revista Wizard - O Guia dos Quadrinhos / Número 1 - Agosto 1996